O Barfly e o lado B

10 de abril de 2015

Casa de Camden Town garante ótimos shows

Depois de nos ter brindado, detalhando a sua incursão ao  100 Club, chegou a hora de Thales Paradela nos entregar tudo o que conferiu de mais bacana em outro tradicional endereço indie de Londres.
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Camden Calling!
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Por Thales Paradela*
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No sabadão, convenço o colega que me hospedara e que trabalha num banco de investimento a se debandar para Camden Town (Estação Camden Road), lugar aparentemente pouco frequentado pelos yuppies do mercado financeiro. Não estava muito cheio para o primeiro round de shows e quase ficamos em dúvida se valia a pena os £8. Entramos no final da primeira performance da noite com o grupo The Moon and The Tide. A programação contava ainda com shows das bandas The Step e Rhyn. Dai saquei a organização da coisa: todos os shows começam pontualmente no horário, duram 35 minutos e toda a estrutura é desmontada e remontada para a banda seguinte em 15 minutos. Isso inclui a banquinha com camisetas e CDs de cada banda que se apresenta. Só inglês consegue fazer este esquema funcionar!  Outra sacada, cada banda tem seu público fiel que também muda completamente a frequência do pequeno salão. Olhar o público tão diferente cantando a música da novíssima geração é também um show à parte. O esquema da escalação é o mesmo da noite anterior: joga primeiro o ”infantil”, depois os ”juniores” e os ”profissionais” ao final… Considerando apenas que desde os primeiros acordes tudo soa muito redondo e bem tocado, embora fique claro que a complexidade sonora aumenta. Por outro lado, a animação do público das primeiras bandas é mais juvenil e contagiante. Depois dos três shows, descemos para o Bar propriamente dito (os shows no Fly, são no segundo andar, um salão apertadinho), emendamos outros pints e um indefectível Pub Burguer (Fries of Course). O Bar começava a encher. Fomos saindo quando o porteiro, que havia simpatizado comigo por conta do papo sobre futebol que trocamos na entrada, perguntou por que íamos embora sem ver o resto dos shows. Como assim? Era verdade, pelos £8 eram 2 rounds de 3 shows. Não foi fácil convencer o meu amigo “mauricinho” a continuar naquele reduto indie no sábado à noite, mas como só havia uma chave de casa, ele resolveu ficar mais um pouco. Com isso eu completaria 9 shows em 24 horas de estada em Londres. Uma viagem completa ao redor de diversos estilos de Rock em apenas duas noites e por apenas £16, genial!

Ouvindo todas aquelas bandas dava um impulso de pensar: qual desses é o novo Oasis, ou Pulp? Não dá pra cravar a aposta, são estilos muito diferentes, sempre competentes, em fases de maturidade musical distintas. O certo é saber que poderá nascer a cada ano um novo fenômeno musical, pois é muita qualidade nas “categorias de base”. Não arrisco nada, mas como só dava pra comprar um CD (havia gasto demais nos pints) escolhi a banda Rhyn, que ouvi no Barfly. Uma levada bastante firme, direta, mas com melodias mais complexas e uma base de sintetizador eletrônico que fazia a turma tanto “bater cabeça”, quanto balançar com estilo no salão. Até meu amigo desacostumado ao underground foi se familiarizando com os beats… Sem comparar, me lembrou a sensação de quando primeiro ouvi o disco “a procura da batida perfeita” do Marcelo D2, e não sabia se dançava um sambinha miudinho ou se balançava num funk dos 70s… A pegada do CD Firewood é um pouco diferente do que vi no show. Como todo trabalho de estúdio é mais caprichado em termos harmônicos, tem uma base mais diversificada de instrumentos e as vozes estão mais limpas e equalizadas em timbres diferentes, complementares. A batida é até mais pesada, enche a caixa, e faz uma base de responsa para as melodias bonitas. Por outro lado, a base eletrônica não é marcante no CD, talvez tenham escolhido um set list “sábado à noite” mais dançante no show ao vivo. Anyway, o CD morou umas boas semanas no meu player quando voltei ao Brasil e embalou muito whisky de final de noite . Bem, não é minha aposta do novo Coldplay, pode ser qualquer um, mas foi a referência que mais curti na programação.

Nove shows em 24 horas!

Descemos novamente ao Bar que, perto da meia-noite, já estava completamente lotado. Outra frequência, mais de Night mesmo: meninas lindas com aqueles vestidinhos colados, igual no Brasil e os meninos se embriagando para ter coragem de dizer as bobagens de sempre (nada diferente…). Meu amigo sorriu e nos animamos a tomar a saideira observando a molecada. Quando me levantei para pedir outra cerveja, uma menina linda me chamou e sorriu “Sir, you left your glove…” e me devolveu a luva que tinha caído do meu bolso. Nem consegui agradecer, o “Sir” era eu…? É… o tempo passa. O espírito Rock ‘n Roll pode até manter-se jovem, mas os cabelos brancos entregam… Foi o que faltava! Desistimos da saideira e nos apressamos para não perder o último tube que saía 0:23h. Definitivamente não valia a pena ficar pra trás e esperar um ônibus vermelhinho pela madrugada depois daquele “Sir”.

Assim foi, um final de semana Rock em Londres (partiria no dia seguinte), com 9 shows em 24 horas, por apenas £16 e um panorama fascinante da cena vanguardista no 100 Club e Barfly. Sabia que, se eu passasse um mês, iria ouvir música boa e diferente todas as noites. Sabia que se fosse por mais dez anos, haveria sempre uns moleques, tirando a camisa e tocando três acordes com a fome de muitas eras. Sabia que haveria sempre alguém para, como Sísifo, carregar eternamente a pedra morro acima. Eternamente em Londres, como no mito, porque alguém pode levar a pedra até o topo da montanha, mas sempre haverá trabalho pra geração seguinte, pois The Rock must roll.

 

*Thales Paradela é poeta, escritor, dramaturgo, ator e mochileiro. Publicou os livros “Pedra Curva Tempo” e “Vivo demais para ser feliz impunemente”, o qual serviu de base para sua peça com o mesmo título.

 

artigo publicado por popmix
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